Os estágios do desenvolvimento da consciência

Segundo Edinger o eixo ego – Si-mesmo representa uma conexão primordial entre esses dois centros (ego e Si-mesmo), essa conexão deve permanecer no decorrer da vida para que o ego suporte as tensões e se desenvolva.

Para Edinger os estágios do desenvolvimento da consciência são três:
- Inflação;
- Alienação;  
- Individuação.

Começaremos pela inflação, mas apenas de maneira resumida, pois, para este trabalho a idéia é apenas mostrar o quanto o pai e a mãe são importantes para a criança que se encontra no estagio inflacionado. Claro que este estágio não ocorre apenas na infância, podemos encontrar adultos em estados inflacionados, mas vou me concentrar no período da infância.

Segundo Edinger (1995), a inflação está diretamente relacionada à atitude e ao estado na qual ocorre uma identificação do ego ao Si-mesmo. A inflação corresponde ao estagio inicial da consciência, que é caracterizado quando algo pequeno (ego) atribui a si qualidades de algo maior (Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas.

Nesta visão, viemos ao mundo num estado inflacionado, onde o ego está identificado com a realidade interna, portanto, não conseguimos a principio, descriminar o que pertence à nossa realidade interna e externa.

Na primeira infância, não existe ego ou consciência, ou melhor, estes aspectos encontram-se no inconsciente. Como Edinger refletiu muito bem, o Si-mesmo nasce, mas o ego é construído. No principio, tudo é Si-mesmo – Como o Si-mesmo é o centro e a totalidade do ser, o ego totalmente identificado ao Si-mesmo – percebe-se como divindade.

Com o ego identificado com o Si-mesmo, desenvolver a consciência torna-se uma necessidade crucial para criança; em outras palavras, é chegado um momento que ela precisa partir dessa doce ilusão de ser o centro do universo, a saída do paraíso torna-se imprescindível para seu crescimento. Quando isto ocorre chegamos ao segundo estagio do desenvolvimento da consciência - a alienação.

Passaremos agora a observar como funciona o estágio alienado. Para um desenvolvimento equilibrado dos pólos, a percepção e vivência com o estagio alienado é crucial para o crescimento humano. Na abordagem junguiana as polaridades são vitais, são tão importantes como o yin e yang na medicina Chinesa, que correspondem aos opostos complementares, por exemplo: o dia e a noite, o cheio e o vazio, o amor e o ódio, mãe e pai, o dentro e o fora e, etc.

A cristalização em um pólo pode ser danosa para a experiência humana. Aqui me refiro aos aspectos unilaterais, por exemplo; viver apenas os chamados da vida consciente e ignorar os aspectos inconscientes pode ser um risco à saúde psíquica e física, assim como o contrario também é verdadeiro.

Voltando à alienação, embora o ego inicie sua jornada em um estado inflacionado ele não poderá permanecer neste estado indiscriminado e divinizado. Na alienação, a realidade frustra as expectativas inflacionadas, deste modo ocorre um estranhamento entre o ego e o Si–mesmo. Esse estranhamento para Edinger (1995) é simbolizado por imagens como quedas, exílio, ferida sem cura etc. Quando essas imagens aparecem o ego não foi apenas castigado, mas foi ferido, podendo ocorrer um dano no eixo ego – Si-mesmo.

Segundo Edinger o eixo ego – Si-mesmo representa uma conexão primordial entre esses dois centros (ego e Si-mesmo), essa conexão deve permanecer no decorrer da vida para que o ego suporte as tensões e se desenvolva.

O eixo trata-se de um canal de comunicação entre os aspectos conscientes e a psique arquetípica. Vivências extremas e brutais, principalmente na infância, poderão levar a uma falha ou mesmo a uma ruptura com a conexão entre consciente e inconsciente e provocar a alienação do ego com relação à sua origem e fundamento (Si-mesmo).

Podemos perceber que o estado de inflação leva a criança a uma identificação do ego com o Si-mesmo, já na alienação o ego irá experimentar uma separação do Si-mesmo imposto pela realidade externa. Esses dois movimentos são necessários para o desenvolvimento da consciência, tanto da criança como do adulto.

Para a criança os pais são imprescindíveis no desenvolvimento da consciência, como veremos a seguir.

No caso do ego de uma criança, ele experimenta uma vivencia muito concreta do Si - mesmo na relação com a mãe. Segundo Edinger:

A criança tem de si mesma uma experiência bem concreta de ser o centro do universo. A mãe, a princípio, responde a essa exigência; conseqüentemente, os relacionamentos iniciais tendem a encorajar a criança a pensar que seus desejos constituem uma ordem para o mundo – e é absolutamente necessário que assim seja. Se a dedicação total e constante da mãe à necessidade da criança não for experimentada, esta não poderá desenvolver-se psicologicamente. (Edinger, 1995, p.33.)

Como podemos perceber o amor maternal é essencial para a criança suportar a rejeição que a vida inevitavelmente impõe, uma parte da estrutura do ego vai depender dessa relação primária entre mãe e filho, pois sabemos que mais cedo ou mais tarde o mundo começa necessariamente a colocar limites nas exigências feitas pela criança.

Segundo Neumann (1996), a mãe e o filho experimentam o relacionamento primário, no qual a mãe é a fonte de orientação, proteção e nutrição.

Caminhando nesta linha de reflexão, ou seja, a mãe como representante do inconsciente chegamos ao arquétipo materno que compreende não somente a mãe real de cada pessoa, mas também todas as figuras de mãe no papel de apoio, nutridora, protetora e acolhedora. (Isto quer dizer mulheres em geral, imagens míticas de mulheres como, por exemplo: Virgem Maria, Mãe Terra, Deméter e Avó).

O arquétipo materno inclui aspectos tanto positivos quanto negativos, sendo os aspectos positivos: nutrir, acolher, proteger etc. Os negativos seriam: a mãe ameaçadora, dominadora, controladora entre outros. Assim finalizo esta breve apresentação do papel materno e sua influência no desenvolvimento tanto da consciência como para o crescimento da criança.

Espero que tenha ficado claro o quanto à mãe é vital para uma estruturação do ego, principalmente no inicio da vida, pois, a criança, recebendo esse amor incondicional da mãe estará com maiores chances de estruturar o ego para suportar os limites e frustrações que a vida coloca.

Passaremos agora ao arquétipo paterno: o pai, na abordagem Junguiana, tem a função de separar a criança da mãe, pois, como foi mostrado anteriormente, a criança, na fase inicial da vida, forma um todo com a mãe, tanto nos aspectos físicos quanto emocionais desde a gestação. No momento do parto acontece a separação física da criança com o corpo da mãe, no entanto a criança permanece ainda psiquicamente ligada à mãe.

O arquétipo materno como já vimos está relacionado ao inconsciente, já o arquétipo paterno ou masculino está associado ao desenvolvimento da consciência.

O pai enquanto terceiro elemento, na dinâmica familiar é importante na estruturação do ego, principalmente no que está relacionado ao desenvolvimento da consciência.

Poderíamos refletir que sem a figura masculina a criança correria um risco de ficar presa no universo inconsciente.

De acordo com Neumann (1995), o patriarcado representa à estação solar, na qual é instalada a relação da criança com o mundo e a lei. A presença do pai na relação mãe e filho proporcionam uma ruptura na simbiose e onipotência infantil. Através da figura paterna se instala o princípio de realidade, adiamento do desejo e separação da criança do mundo materno. Com a figura do pai a criança tem a possibilidade de sair da relação de exclusivamente que vive com mãe.

O pai, portanto, frustra a criança e mostra a ela a realidade externa, o terceiro elemento entra em cena. Daí a importância do pai no desenvolvimento da consciência, bem como no desenvolvimento infantil.

Segundo Jung (2002), atrás do pai pessoal existe o arquétipo do pai, o arquétipo paterno existe antes mesmo do pai, aí esta o segredo do poder paterno. Quando falamos do arquétipo paterno é preciso compreender que através dele instaura-se a ordem, cultura, disciplina, as relações de poder, respeito às hierarquias e autoridade.

À medida que a criança vai integrando o conhecimento através das experiências parentais, ela poderá compreender, na relação com o pai, a colocar limites em si mesma e no outro.
Temos aqui as polaridades do arquétipo paterno. Em termos positivos ele representa; a ordem, estabilidade, segurança, responsabilidade e autoridade. Nos aspectos negativos encontramos a impotência, impulsividade, depressão, desumanização, sofrimento, rigidez etc.

Parece-me claro o quanto o pai é importante para o desenvolvimento, tanto psicológico como físico, de uma criança ou uma pessoa. Através da experiência com o pai a criança tem a possibilidade de projetar seu mundo interior e descobrir que existe outra realidade além da qual ela está intrinsecamente envolvida, o pai chama e apresenta ao filho o mundo externo e racional, discriminar o eu e o outro que habita em nós.

Em outras palavras, os aspectos inconscientes precisam dos aspectos conscientes e vice-versa. Para nos desenvolvermos precisamos nos encontrar com a nossa imagem de mãe e pai.

Quando ocorre o dialogo entre os aspectos inconscientes e conscientes, estamos próximo do processo que Jung chamou de individuação.

Resumidamente, o processo de individuação compreende um auto-desenvolvimento, ou seja, tornar-se um ser único ligado ao todo. Trata-se de uma aceitação de Si-mesmo, com suas dores e alegrias.

Na individuação busca-se o desenvolvimento da totalidade, isto quer dizer: um contato com o eixo ego - Si-mesmo visando à integração entre os aspectos conscientes e inconscientes da vida humana.

Um dos aspectos que julgo importante no processo de individuação e sua busca de mais autonomia e liberdade segue no texto abaixo.

O indivíduo deve tornar-se um ser único, desligado dos complexos paterno e materno, em conseqüência, dos padrões coletivos de normas e valores de uma sociedade, de expectativas de papeis, daquilo que “as pessoas pensam”. Tornar-se si-mesmo significa também atingir a maioridade. (Kast, 1997, p.10.)

Como podemos observar a individuação não é um processo simples de ser conciliado e vivenciado, requer uma confrontação de valores internos e sociais, dos aspectos conscientes e inconscientes, do que foi ensinado pelos pais com o que realmente faz sentido para o indivíduo.

Em certos momentos é preciso se curvar diante da existência, para que o ego experimente o humano e o divino. Aqui o algo pequeno (ego) começa o dialogo com o algo maior (Self) e vice- versa, assim temos uma das várias características do processo de individuação, a confrontação aqui está relacionada à condição de enfrentamento que o ego precisa para suportar as tensões, vindas do movimento inconsciente e consciente, daí necessidade do eixo- Self (Si-mesmo) não ser rompido, o ego precisa ser forte para suportar as mudanças impostas pela vida.   
 

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